Meu filho gosta de ouvir uma canção cuja letra diz: “Peixinho, peixinho, cuidado com o rio.../ Ele tem segredos que você não viu”. De maneira singela, a música infantil ensina aos pequenos uma realidade da vida: o mundo, apesar de suas belezas, está repleto de perigo e dor.
“Viver é perigoso”, diz o velho clichê dos jagunços de Rosa. Eu prefiro a adaptação de Jamil Snege: “Viver é prejudicial à saúde”. Também aprecio o verso inicial do “Soneto do Corifeu”, na dicção de Vinicius de Moraes: “São demais os perigos desta vida”. Às vezes eu acho que os anjos só falam em decassílabos.
Ontem, quando meu filho ouvia mais uma vez a canção do peixinho, não pude esquecer as palavras e o olhar do dr. Ascêncio, depois da tragédia em sua família. Tento, e não consigo, imaginar o tamanho e a profundidade da dor que atingiu o médico e primeiro reitor da UEL. Quem não se comove com o sofrimento desse pai? Quem não se revolta com o fato de que os adolescentes envolvidos com o crime logo estarão livres?
Não existe explicação sociológica para o crime hediondo. Alguns dizem que o latrocínio nasce da miséria ou da riqueza – em outras palavras, do conflito entre ambas. Considero tal explicação imensamente ofensiva aos miseráveis e aos ricos. Digo mais: é uma explicação diabólica – porque o diabo divide.
O crime de latrocínio começa a nascer quando a propriedade e a liberdade individuais passam a ser vistas como a origem do mal – quando, na verdade, as duas são as principais vítimas dele.
Se um homem mata o outro para lhe roubar o relógio, a bolsa ou o carro, a culpa não é de quem exerce o seu direito de propriedade, mas de quem o desrespeita. O latrocínio é uma forma de dizer: “Você não pode ser dono de nada – nem da sua vida”. Sentença que é levada ao extremo nos regimes totalitários. Não por acaso, Stálin foi assaltante antes de se tornar ditador.
Por isso, é preciso gritar – e gritar muito forte – quando ocorre um latrocínio. O rio da vida já tem perigos demais para que aceitemos esse redemoinho de ódio.
Texto do blog do Paulo Briguet em http://www.jornaldelondrina.com.br/blogs/comoperdaodapalavra

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