Meu filho gosta de ouvir uma canção cuja letra diz: “Peixinho, peixinho, cuidado com o rio.../ Ele tem segredos que você não viu”. De maneira singela, a música infantil ensina aos pequenos uma realidade da vida: o mundo, apesar de suas belezas, está repleto de perigo e dor.
“Viver é perigoso”, diz o velho clichê dos jagunços de Rosa. Eu prefiro a adaptação de Jamil Snege: “Viver é prejudicial à saúde”. Também aprecio o verso inicial do “Soneto do Corifeu”, na dicção de Vinicius de Moraes: “São demais os perigos desta vida”. Às vezes eu acho que os anjos só falam em decassílabos.
Ontem, quando meu filho ouvia mais uma vez a canção do peixinho, não pude esquecer as palavras e o olhar do dr. Ascêncio, depois da tragédia em sua família. Tento, e não consigo, imaginar o tamanho e a profundidade da dor que atingiu o médico e primeiro reitor da UEL. Quem não se comove com o sofrimento desse pai? Quem não se revolta com o fato de que os adolescentes envolvidos com o crime logo estarão livres?
Não existe explicação sociológica para o crime hediondo. Alguns dizem que o latrocínio nasce da miséria ou da riqueza – em outras palavras, do conflito entre ambas. Considero tal explicação imensamente ofensiva aos miseráveis e aos ricos. Digo mais: é uma explicação diabólica – porque o diabo divide.
O crime de latrocínio começa a nascer quando a propriedade e a liberdade individuais passam a ser vistas como a origem do mal – quando, na verdade, as duas são as principais vítimas dele.
Se um homem mata o outro para lhe roubar o relógio, a bolsa ou o carro, a culpa não é de quem exerce o seu direito de propriedade, mas de quem o desrespeita. O latrocínio é uma forma de dizer: “Você não pode ser dono de nada – nem da sua vida”. Sentença que é levada ao extremo nos regimes totalitários. Não por acaso, Stálin foi assaltante antes de se tornar ditador.
Por isso, é preciso gritar – e gritar muito forte – quando ocorre um latrocínio. O rio da vida já tem perigos demais para que aceitemos esse redemoinho de ódio.
Texto do blog do Paulo Briguet em http://www.jornaldelondrina.com.br/blogs/comoperdaodapalavra
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Do latrocínio
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sábado, 14 de maio de 2011
Pessoal de Londrina, aqui vai um desabafo
Gente, estou preocupada. Recebo a newsletter da Folha de Londrina todos os dias por e-mail para ter um pouco mais de contato com a cidade onde nasci e cresci, onde muitos parentes e amigos meus ainda moram e para onde gosto de ir e vou sempre que posso. Já pensei em cancelar essa newsletter da Folha muitas vezes porque receber SÓ notícias de assassinato, assalto, corrupção e coisas do tipo dão uma certa tristeza e uma grande sensação de impotência – apesar de eu sempre, sempre lutar contra essa sensação deprimente, inútil e bloqueadora. Sim, porque sempre há algo que pode ser feito por nós mesmos e por cada um. Sempre.
Imagino que muitos de vocês que moram em Londrina também têm esse sentimento: de viver constantemente como um refém do crime, adaptando sua vida e sua rotina àquela neurose coletiva que o medo constante aflora, e abrindo mão do simples direito de ir e vir por receio de ser assaltado, roubado ou sequestrado, sempre à mercê de uma polícia no mínimo apática. No mínimo. (sim, estou sendo gentil e eufêmica)
Gente, e aí? O que podemos fazer pra mudar isso? O que podemos fazer para, pelo menos, começar a melhorar?
Será que o botãozinho "start" só vai acender quando alguém da nossa família ou um grande amigo levar um tiro na cabeça, como aconteceu com essa mulher ontem de manhã no centro da cidade? (uma cidade relativamente pequena, de 500 mil habitantes, pra quem não conhece)
Aconteceu o seguinte: Uma mulher de 49 anos foi baleada na cabeça ontem, após uma tentativa de assalto, por um adolescente de 14 anos, acompanhado de outros dois já com passagem pela polícia. Ela estava em seu carro no cruzamento da JK com a Pernambuco. A filha dela está com casamento marcado para esse mês. E ela (a vítima) é filha de um médico, professor e ex-reitor da UEL. Mas isso não vem ao caso. Não mesmo. Podia ser filha e mãe de qualquer um de nós. Essas são só informações complementares que não dão (e não devem dar) maior ou menor peso à gravidade que esse e outros crimes que ocorreram (ou foram descobertos) essa semana estão “gritando” por si só. Sim, esses fatos estão "berrando" o seguinte: os londrinenses (ou qualquer pessoa que more ou que passe por Londrina) não estão seguros e não estão tendo seus direitos básicos respeitados.
Aqui vai o link do JL sobre o caso e sobre outros crimes que mantiveram bem ocupados os jornalistas de Londrina essa semana: http://www.jornaldelondrina.com.br/online/conteudo.phtml?id=1125354
Na minha opinião, Londrina continua padecendo pela falta de consciência, organização e ação COLETIVA. Aliás, esse pensamento individual e individualista é o que mais atrasa não só Londrina, mas o Brasil inteiro.
Mas há uma saída! Há sim. Logo de cara o problema pode parecer grande, imenso e complexo demais, mas ele pode ser dividido e resolvido em partes, aos poucos. E assim nascem as soluções: pequenininhas. E gradualmente elas crescem e se espalham, ganhando corpo e cada vez mais visibilidade. Afinal, mudanças coletivas são PROCESSOS que se desenvolvem EM REDE, não individualmente, e não de repente, de um dia para o outro. Parece óbvio, mas isso precisa ser relembrado por todos nós que vivemos na era do imediatismo.
Exemplos de que é possível? Não precisamos ir muito longe para encontrá-los. Aqui mesmo, na América do Sul, temos exemplos de países que abandonaram o “paradigma do umbigo” para pensar e agir coletivamente: Chile (todo o país) e Medellín (na Colômbia). É só pesquisar no Google. Esses exemplos falam por si e têm muito a sugerir a nós, brasileiros, ainda bastante individualistas em maior ou menor grau.
Mas e aí, gente? Quem vem comigo? Vamos pensar juntos? Vamos agir juntos? Ou vamos simplesmente nos conformar e nos trancafiar em casa – ou em carros blindados, para quem puder e quiser pagar – tentando inutilmente garantir a falsa sensação de proteção como se vivêssemos dentro de uma bolha protetora? Não, né? Não dá porque sabemos que a ameaça continua rondando ali na esquina... e nós podemos ser as próximas presas.
E aí, quem vem comigo?
Quem estiver incomodado e motivado o suficiente para se mobilizar, por favor, me escreva uma mensagem dando sugestões e idéias do que podemos fazer (começando por nós mesmos) para melhorar a nossa Londrina.
13/05/2011
Paula Diniz.
**Eu e meu marido já começamos a agir daqui de São Paulo (onde moramos) criando esse blog.
Nosso objetivo é que este não seja só mais um blog, mas um espaço para sugestões e organização coletiva.
Participe quem quiser, com sugestões e iniciativas. Participe se achar que esse problema te afeta ou pode te afetar de alguma maneira.
***Siga o #LondrinaSegura no Twitter. Quem sabe conseguimos chegar nos destaques do Twitter (e assim despertar a atenção da mídia nacional): www.twitter.com/londrinasegura .
Imagino que muitos de vocês que moram em Londrina também têm esse sentimento: de viver constantemente como um refém do crime, adaptando sua vida e sua rotina àquela neurose coletiva que o medo constante aflora, e abrindo mão do simples direito de ir e vir por receio de ser assaltado, roubado ou sequestrado, sempre à mercê de uma polícia no mínimo apática. No mínimo. (sim, estou sendo gentil e eufêmica)
Gente, e aí? O que podemos fazer pra mudar isso? O que podemos fazer para, pelo menos, começar a melhorar?
Será que o botãozinho "start" só vai acender quando alguém da nossa família ou um grande amigo levar um tiro na cabeça, como aconteceu com essa mulher ontem de manhã no centro da cidade? (uma cidade relativamente pequena, de 500 mil habitantes, pra quem não conhece)
Aconteceu o seguinte: Uma mulher de 49 anos foi baleada na cabeça ontem, após uma tentativa de assalto, por um adolescente de 14 anos, acompanhado de outros dois já com passagem pela polícia. Ela estava em seu carro no cruzamento da JK com a Pernambuco. A filha dela está com casamento marcado para esse mês. E ela (a vítima) é filha de um médico, professor e ex-reitor da UEL. Mas isso não vem ao caso. Não mesmo. Podia ser filha e mãe de qualquer um de nós. Essas são só informações complementares que não dão (e não devem dar) maior ou menor peso à gravidade que esse e outros crimes que ocorreram (ou foram descobertos) essa semana estão “gritando” por si só. Sim, esses fatos estão "berrando" o seguinte: os londrinenses (ou qualquer pessoa que more ou que passe por Londrina) não estão seguros e não estão tendo seus direitos básicos respeitados.
Aqui vai o link do JL sobre o caso e sobre outros crimes que mantiveram bem ocupados os jornalistas de Londrina essa semana: http://www.jornaldelondrina.com.br/online/conteudo.phtml?id=1125354
Na minha opinião, Londrina continua padecendo pela falta de consciência, organização e ação COLETIVA. Aliás, esse pensamento individual e individualista é o que mais atrasa não só Londrina, mas o Brasil inteiro.
Mas há uma saída! Há sim. Logo de cara o problema pode parecer grande, imenso e complexo demais, mas ele pode ser dividido e resolvido em partes, aos poucos. E assim nascem as soluções: pequenininhas. E gradualmente elas crescem e se espalham, ganhando corpo e cada vez mais visibilidade. Afinal, mudanças coletivas são PROCESSOS que se desenvolvem EM REDE, não individualmente, e não de repente, de um dia para o outro. Parece óbvio, mas isso precisa ser relembrado por todos nós que vivemos na era do imediatismo.
Exemplos de que é possível? Não precisamos ir muito longe para encontrá-los. Aqui mesmo, na América do Sul, temos exemplos de países que abandonaram o “paradigma do umbigo” para pensar e agir coletivamente: Chile (todo o país) e Medellín (na Colômbia). É só pesquisar no Google. Esses exemplos falam por si e têm muito a sugerir a nós, brasileiros, ainda bastante individualistas em maior ou menor grau.
Mas e aí, gente? Quem vem comigo? Vamos pensar juntos? Vamos agir juntos? Ou vamos simplesmente nos conformar e nos trancafiar em casa – ou em carros blindados, para quem puder e quiser pagar – tentando inutilmente garantir a falsa sensação de proteção como se vivêssemos dentro de uma bolha protetora? Não, né? Não dá porque sabemos que a ameaça continua rondando ali na esquina... e nós podemos ser as próximas presas.
E aí, quem vem comigo?
Quem estiver incomodado e motivado o suficiente para se mobilizar, por favor, me escreva uma mensagem dando sugestões e idéias do que podemos fazer (começando por nós mesmos) para melhorar a nossa Londrina.
13/05/2011
Paula Diniz.
**Eu e meu marido já começamos a agir daqui de São Paulo (onde moramos) criando esse blog.
Nosso objetivo é que este não seja só mais um blog, mas um espaço para sugestões e organização coletiva.
Participe quem quiser, com sugestões e iniciativas. Participe se achar que esse problema te afeta ou pode te afetar de alguma maneira.
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